Simone Beauvoir

14mai09

As mãos de Fosca apertaram-na e ela estremeceu. Outrora, com outros homens, ela sentia somente as caricias, não sentia as mãos; ao passo que as mãos de Fosca existiam e Régine era apenas uma presa. Febrilmente ele tirava-lhe as roupas, como se mesmo para ele houvesse carência de tempo, como se cada segundo tivesse se tornado um tesouro que cumpria não desperdiçar. Enlaçou-a e um vento de fogo levantou-se nela, varrendo as palavras, as imagens: nada mais nela, e ela era presa desse desejo velho como a terra, esse era o desejo dela, mas desejo de tudo: ela era esse desejo, esse vácuo ardente, essa espessa ausência, ela era tudo. O instante ardia, a eternidade estava vencida. Tensa, crispada numa paixão de espera e angústia, ela respirava no mesmo ritmo ofegante de Fosca. Ele gemeu e ela enfiou as unhas na sua carne, rasgada pelo espasmo triunfante, sem esperança, pelo qual tudo acabava e tudo se desfazia, arrancada à paz ardente do silêncio, rejeitada toda inteira em si mesma, Régine, inútil, traída. Passou a mão na fronte dele, em suor, seus dentes entrechocaram-se.

Simone Beauvoir – Todos os homens são mortais



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